A Terra abriga cinco mil grupos étnicos - a maior parte deles minoritários - em cerca de 200 países.
Há um professor argentino, diretor do programa de estudos sobre cultura urbana na Universidade Autônoma Metropolitana do México, Néstor Canclini, que coleciona informações sobre a absoluta ignorância das pessoas acerca da riqueza cultural alheia, fruto de um monopólio danoso. A indústria audiovisual é a maior exportadora dos Estados Unidos. Fatura 60 bilhões de dólares por ano. Desde a década de 1990, seis empresas transnacionais tomaram conta de 96% do mercado mundial de música. Compraram pequenas gravadoras e editoras em países latino-americanos, africanos e asiáticos. No que se refere ao cinema, mais de 90% das telas norte-americanas só exibem filmes feitos no próprio país - e 85% das fitas exibidas no planeta brotam de Hollywood.
Informações da Organização Mundial do Comércio (OMC) dão conta de que o faturamento das indústrias criativas no mercado internacional duplicou nos primeiros três anos do século XXI. Segundo os cálculos dos especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU), a economia criativa, que envolve setores como teatro, artesanato, televisão, cinema, entre muitos outros, é responsável por 7% da riqueza produzida no mundo. Essa, no entanto, é uma média. Esconde disparidades.
Pelas contas da Unesco, o Reino Unido, os Estados Unidos e a China produzem 40% dos bens culturais negociados no planeta -- entre eles livros, CDs, filmes, videogames e esculturas. As vendas da América Latina e da África, somadas, não chegam a 4%. No Brasil, os cálculos indicam que o PIB Cultural contribui com apenas 1% da riqueza nacional.
A cultura é uma das áreas em que a mão invisível do mercado, de que Adam Smith falava no século XVIII, é realmente invisível. E inoperante.
Na França o departamento de pesquisas do Ministério da Cultura foi criado em 1959. Ali, 40% das músicas tocadas pelas emissoras de rádio têm de ser em idioma francês. O escritório dedicado a cuidar da exportação da produção musical foi criado em 1993, e está presente em Nova York, Londres, Berlim e Paris. O volume de vendas saltou de 1,5 milhão de CDs em 1992 para mais de 39 milhões em 2000. O governo subsidia a produção de filmes para televisão e as expressões culturais do povo gaulês.
No Reino Unido, a expressão “Creative Britain” foi cunhada em 1997. Os órgãos públicos fomaram parcerias com o setor privado para impulsionar as indústrias criativas. Em 2002, o setor representou 4,2% dos produtos e serviços exportados pelo país - e o crescimento das vendas externas é, em média, de 13% ao ano. Essa turma criou cerca de 8% da riqueza produzida em 2003. Os dados são do ministério das Indústrias Criativas.
O Canadá passou a liberar verba pública para programas de treinamento, abertura de empresas e criação de empregos no setor em 1980. Treze anos depois, constatou-se que cada dólar aplicado em atividades relacionadas à cultura gera 3,2 dólares na atividade econômica como um todo.
Na Argentina existe uma autarquia que recolhe 10% do faturamento dos cinemas, 10% das locadoras de vídeos e impostos pagos pela publicidade para subsidiar a produção de filmes. Resultado: em 2003, o país produziu 50 longas-metragens, o dobro da média registrada entre 1980 e 1990. O Egito estimula parcerias público-privadas para financiar a infra-estrutura da indústria cinematográfica. E na Hungria, 6% das receitas das emissoras de televisão são direcionados à produção de filmes nacionais.
Diversidade e cultura podem gerar riqueza. CQD.
Eliana Simonetti
* Uma versão desse texto foi publicada na revista Desafios do Desenvolvimento (www.desafios.org.br), do Ipea e do Pnud, em fevereiro de 2006
Saturday, April 01, 2006
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